Povos Indígenas – O que eles podem nos ensinar

A grande massa da população acredita, um tanto romanticamente, que os povos indígenas são protetores da natureza por “natureza”, ou seja, que fazem isso porque são “bonzinhos”. E que seria esta a única coisa que o diferem do mundo capitalista.

Não é nada disso, ou muito pouco. A proteção da natureza pelos povos tribais antigos é decorrente de uma série de fatores ligados à
organização social, às crenças e aos modos de viver dessas comunidades.

Mas, não é somente o respeito à natureza que os povos tribais antigos tem a nos ensinar. Suas formas de viver com os da mesma espécie, desenvolvidas em milênios de vida em comum, nos trazem de volta várias lições preciosas de convivência comunitária, que o processo capitalista nos tirou, no afã de melhor dominar, vender seus produtos e explorar o trabalho. É preciso relembrar que todos os humanos foram tribais, em alguma época do passado.

A vida em comunidades, com regras de convivência milenares, desenvolveram mentalidades que hoje, podemos dizer que é exatamente o que nos falta para sermos mais felizes e que representam as grandes utopias que a humanidade, inserida no mundo capitalista, tenta alcançar.

O ponto de partida para esta compreensão está no desvirtuamento que o sistema capitalista, aliado às religiões, criou nas mentalidades das pessoas, de que a terra e seus elementos foram criados para usufruto exclusivo da espécie humana e que ela é uma espécie de “inimigo” que deve ser dominado.

Os povos indígenas, ao contrário, acreditam que os humanos representam apenas mais uma espécie animal que habita a terra e, como tal, necessita de todos os outros elementos para viver. Creem, ainda, que todos os elementos naturais possuem os seus guardiões espirituais, que devem ser respeitados e reverenciados. Os homens, obviamente, também têm os seus, representados pelos heróis míticos ancestrais.

Mas, várias outras lições podemos re-aprender com os povos indígenas. As principais são:

  • O conceito de “nosso”, em oposição o conceito de “meu”, desenvolvido pelo capitalismo. Para os povos tribais, as únicas coisas que são consideradas bens do indivíduo são os seus objetos de uso pessoal, mesmo porquê são auto adaptados. O restante é de uso coletivo;
  • A divisão equânime dos alimentos. Os sistemas tribais obrigam o indivíduo a fazer a partilha dos alimentos que consegue produzir no cotidiano, através das “relações de reciprocidade”, geralmente determinadas pelas regras de parentesco. Obviamente, outras pessoas e famílias também enviarão alimentos para ele, promovendo assim, a perfeita distribuição dos produtos;
  • A decisão dos assuntos importantes pelos mais idosos. São eles os mais experientes, centrados e livres das vaidades e disputas, próprias das pessoas mais jovens;
  • Decisões por consenso. No mundo tribal não há votações, as questões são decididas por consenso. Afinal, que representatividade pode haver em uma decisão na qual houve maioria de apenas uma ou poucas pessoas?
  • Lideranças sem privilégios especiais. O líder, no mundo tribal deve ser sempre o menos autoritário, o mais cordato, paciente e o mais dadivoso entre os membros da sua comunidade. Não possui nenhum privilégio especial por exercer a liderança;
  • A educação das crianças. A criança não é tratada como um “ser especial” que deve ser constantemente afagada. Ela é apenas uma pequena pessoa que deve aprender, principalmente, pela observação dos adultos e pela convivência em grupo com outras crianças;
  • A capacidade de perdoar. A convivência em grupo obriga às pessoas a desenvolverem a capacidade do perdão incondicional, mesmo quando a ofensa é grave. Vários mecanismos sociais também contribuem para a paz entre as pessoas, afinal elas se veem e se interagem todos os dias.

Poderíamos enumerar outros exemplos do bem-viver desenvolvidos pelos povos indígenas, mas consideramos esses os principais. Como se vê, estão aí reunidas várias utopias que a sociedade moderna busca alcançar, sem perceber que nossos antepassados já viveram tudo isso, que de certa forma nos foi roubado.

Mas os povos tribais ainda estão aí, para quem ainda deseja aprender melhores formas de viver.

De Longe Toda Serra é Azul – Memórias de um Indigenista

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