O brasileiro é um “Bundão”?

O que o brasileiro fala de si mesmo

A coisa que mais se vê na internet atualmente é brasileiro se autodepreciando: bundões, covardes, ignorantes, burros, só pra dizer alguns, são os adjetivos que temos nos rotulado, para explicar a aparente falta de mobilização da população contra os políticos corruptos. Também virou verdade, atestada por “intelectuais” de plantão nas grandes redes de televisão, que o brasileiro é corrupto “por natureza” e por isso elege os políticos que os representam. Gostam também de ficar comparando o Brasil a outros países mais “avançados”, principalmente europeus e americanos.

Será que somos mesmo uns “bundões”, corruptos e covardes?
Pra começar, somos um povo pouco interessado em nossa história e, por isso mesmo, autoproclamado de “memória curta”.
Para entender, é sempre bom começar pelo começo.

À historia

Em 1.500, os portugueses e depois outros europeus, desembarcaram nesta terra com o intuito de explorá-la ao máximo, enviando os produtos e os recursos auferidos para suas respectivas cortes. Não é por mero acaso que continuam mandando os frutos de seus roubos para a Europa. No inicio, além das bugigangas que traziam para comercializar com os nativos, descarregavam aqui levas e mais levas de degredados, pessoas que consideravam nocivas às suas sociedades. Ou seja, não estavam interessados em fundar um país, mas em sugar tudo o que existia na terra, que poderia transformar-se em dinheiro, para alimentar as sempre famintas e luxuosas cortes europeias.

Pois, foi justamente a corte portuguesa, considerada na época a mais corrupta e parasitária da Europa, fugindo de Napoleão Bonaparte, que veio inaugurar a política e a burocracia no Brasil, em 1808.
Foi “sopa no mel”, como se dizia antigamente. Essa elite corrupta, composta por cerca de dez mil cortesãos, quase imediata e naturalmente se aliou a uma já saliente elite rural, composta pelos descendentes das antigas capitanias hereditárias. Ou seja, a politica e a burocracia brasileira foram inauguradas por corruptos, que imediatamente se aliaram às forças econômicas emergentes, corrompendo-as também gerando oligarquias sucessivas, que permanecem até os nossos dias.

Outro fator que se deve levar em conta para entender nossa situação politica, é a intervenção das forças armadas, sempre que uma crise mais acentuada se apresente. É bom saber que o exército colonial foi criado para reprimir as resistências indígenas e, obviamente, proteger os poderosos. Foram tantas as vezes que nos “protegeram” contra os “baderneiros”, que nos acostumamos. É só ver os clamores de parte da população, para que o exército volte às ruas. Esquece-se que, foi à sombra da ditadura implantada em 1964, que germinaram e floresceram as atuais oligarquias que dominam a politica, os chamados “filhotes da ditadura”.

A índole do brasileiro

Será que os brasileiros sempre ficaram parados, esperando pela “cavalaria”?
Não! Ao contrário, a cavalaria sempre veio para massacrar. A história é que é muito mal contada, ou seja, manipulada para nos convencer que o brasileiro é pacífico e que a colonização, que nunca para, também sempre foi pacífica e harmoniosa.
A índole do brasileiro pode ser pacífica, mas o poder exercido pelos portugueses, no entanto, sempre foi violento. Cada movimento que surgia, para melhoria das condições sociais do povo, era esmagada com requintes de crueldade, “para dar o exemplo”.

E o brasileiro, nunca ficou parado não!

Os conflitos do povo contra o poder

No início, ou seja, no período colonial, a reação foi dos indígenas, que tentaram a todo custo barrar o avanço penetrador de suas terras ancestrais. Foi uma guerra desigual, de flechas contra armas de fogo. Mas o que decidiu mesmo a guerra foram as doenças trazidas pelos chegantes, para as quais os indígenas não tinham resistência biológica. Quando os europeus perceberam isso, traziam roupas infectadas da Europa, para distribuir entre os indígenas aculturados, que as levavam para seus parentes que permaneciam na selva. Essa prática é considerada a primeira guerra bacteriológica da história. Isso, sem contar os massacres planejados e o envenenamento de rios usados pelas tribos. Covardia pura!
Mesmo assim, até hoje, as populações indígenas continuam a resistir bravamente ao avanço colonizador. Se não morrem mais “às pencas” como antes, com as doenças, continuam sendo discriminados e assassinados.

Inúmeras guerras e revoltas populares pipocaram por todo o território brasileiro, desde a colônia. Nossa história oficial registra “por alto”, esses conflitos, mas eles representaram longas e sangrentas lutas de seguimentos da população contra a opressão. Entre muitas outras que, certamente, nem foram registradas, podemos citar: Confederação dos Tamoios, Guerra dos Bárbaros, Zumbi dos Palmares, Insurreição Pernambucana, Canudos, Cabanagem, Guerra dos Mascates, Revolta de Felipe Santos, Guerra dos Farrapos, Guerra dos Emboabas, Inconfidência Mineira, Revolução Praieira, Balaiada, Revolta da Armada, Revolução Federalista, Guerra do Contestado, Movimento Tenentista, Coluna Prestes, Revolução Constitucionalista, Confederação do Equador, Revolução Pernambucana. Isso, sem contar os inúmeros personagens brasileiros que defenderam as minorias, em várias épocas, sendo por isso perseguidos, torturados e assassinados pelo poder dominante.

Regime militar

Tentemos recordar, ao menos, o período de resistência à ditadura implantada pelos militares em 1964, coisa de 50 anos para cá. Relembrar da “guerrilha do Araguaia”, da guerrilha urbana, dos exílios forçados, da resistência dos indígenas e dos indigenistas contra a ocupação da Amazônia, do movimento “diretas já”, que restabeleceu a democracia no país. E, mais uma vez, da violência e covardia praticada pelos torturadores.
Darcy Ribeiro, um dos resistentes perseguidos e exilados pela ditadura militar, em seu livro “O Povo Brasileiro”, pag. 446, registra:“…O ruim aqui e efetivo fator casual do atraso, é o modo de ordenação da sociedade, estruturada contra os interesses da população, desde sempre sangrada para servir a desígnios alheios e opostos aos seus. Não há, nunca houve, aqui um povo livre, regendo seu destino na busca de sua própria prosperidade. O que houve e o que há é uma massa de trabalhadores explorada, humilhada e ofendida por uma minoria dominante, espantosamente eficaz na formulação e manutenção de seu próprio projeto de prosperidade, sempre pronta a esmagar qualquer ameaça de reforma da ordem social vigente

O lado positivo da crise

Devemos considerar que o está acontecendo no momento no Brasil é extremamente positivo, é conquista de todos os brasileiros, ao menos dos brasileiros explorados, que sempre souberam da canalhice dos poderosos, mas nunca haviam conseguido desmascará-los. Para isso lutaram os nossos antepassados e nós próprios. Se a reação não está acontecendo, é porque o povo está confuso e não percebeu, ainda, nenhuma porta de saída. É como se estivéssemos quase no final da subida de uma ladeira muito íngreme, com o inimigo acuado em seu topo, impedindo a passagem para o outro lado, cuja paisagem ainda não conseguimos enxergar.

Outra coisa que o brasileiro precisa ultrapassar, é considerar-se corrupto “por natureza”. Não é nada disso! Corrupto sempre foi o poder de estado exercido aqui, já veio corrupto da Europa, como comentamos acima. O brasileiro é sempre mais “frouxo”, moralmente falando, quando lida com o estado, pois desde sempre percebeu que é a única forma de levar o “seu” também. Vasculhe suas relações, sejam pessoais, sociais ou de trabalho e tente identificar pessoas tão desonestas como as que ocupam os poderes de estado. Achou? Não, não é? Mas, se qualquer uma delas “cair lá dentro”, dificilmente não será corrompida.

A luta do povo

Na verdade a luta do povo, atualmente, é muito maior e mais complicada, porque lida com forças invisíveis, manipuladas pelo grande capital, cujos núcleos se situam nos países imperialistas. Alguém tem dúvida que os golpistas que atualmente ocupam o poder no Brasil receberam, no mínimo, garantias poderosas externas para o seu assalto? E que, para isso, muita coisa foi negociada? Por que será que estão colocando à venda as terras, o domínio de parte do aquífero Guarani, do pré-sal e outras “entregas de bandeja”,aos estrangeiros?

Creio, finalmente, que não devemos ficar nos comparando a outros povos e países. O Brasil é único, pela sua extensão geográfica, pela sua mestiçagem e, ao mesmo tempo homogeneidade linguística. Somos um povo em formação, em busca de seu destino. Recorrendo mais uma vez ao mestre Darcy Ribeiro, na mesma obra, pag. 449: “… Nações há no novo mundo – Estados Unidos, Canadá, Austrália, que são meros transplantes da Europa para amplos espaços de além mar… estamos nos construindo na luta para florescer amanhã como uma nova civilização, mestiça e tropical, orgulhosa de si mesma. Mais alegre porque mais sofrida. Melhor porque incorpora em si humanidades. Mais generosa porque aberta à convivência com todas as raças e culturas e porque assentada na mais bela província da terra”.
Concluindo: Não! O brasileiro não é bundão. E a historia continua…

Posted in Cidadania.