História Real: O Grande Chefe Pedro Penon

Foto: Alex Silveira

Morreu no dia 07 de fevereiro, na Aldeia Pedra Branca, Terra Krahô, estado do Tocantins, o grande chefe PEDRO PENON. Melhor seria dizer ” o grande sábio PEDRO PENON”. Na verdade, ele foi as duas coisas: um grande chefe de seu povo até sua maturidade e um grande sábio em sua longa velhice. Penon morreu com aproximadamente 95 anos, como morrem os grandes sábios: apagando-se lentamente como a chama de uma vela, dando conselhos para seu povo até seu último momento de lucidez.

O que sei de sua vida foi contado por ele mesmo, em fragmentos de conversas, durante nossa convivência. Ele era ainda bastante jovem, quando foi praticamente convocado pelo seu povo para assumir a chefia da aldeia Pedra Branca, a maior das três aldeias Krahô existentes naquela época. Ele estava então iniciando seus estudos na cidade de Carolina-MA. Já sabia ler e escrever razoavelmente e talvez por isso tenha sido chamado. O momento era de extrema gravidade. O povo Krahô acabara de sofrer um grande massacre, desfechado pelos criadores de gado, na região de Itacajá. O ano era 1940. O governo havia mandado tropas para prender os responsáveis pela chacina e falava em criar uma “Inspetoria do Serviço de Proteção aos Índios (S.P.I.)” no território Krahô, que nem demarcado era. O povo estava amedrontado e sem rumo.

Muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo: soldados do exército, sertanistas, indigenistas, jornalistas, muitas propostas, o governo falando em demarcar um território fixo, que precisava ser delimitado. O momento exigia um líder capaz de entender minimamente toda aquela complicação, que soubesse conversar e negociar com aquela gente. Foi aí que, provavelmente por ser o único Krahô que se arriscara fora de seu povo para estudar, que convocaram o Penon e fizeram dele um “Parrití” (chefe de aldeia), apesar de, na época, ser muito jovem para o cargo, segundo os padrões Krahô.

Penon se tornou então um grande chefe. Liderou a delimitação do território Krahô, com 320.000 hectares, que representa hoje talvez a maior área contínua de cerrados preservada de todo o Centro-Oeste Brasileiro. Ao perceber que estavam demorando muito os trabalhos de demarcação, encetou uma longa viagem a pé, de sua terra à cidade de Goiânia e daí, em várias conduções ao Rio de Janeiro, onde conseguiu falar com o Presidente Getúlio Vargas.

A terra Krahô só viria a ser demarcada definitivamente em 1951. Penon liderou então a retirada dos inúmeros posseiros que haviam ficado localizados no interior do território e cuidou sem cessar para que eles não retornassem. Além de um grande líder, Penon era também um diplomata. Intermediou durante anos as difíceis e complicadas relações, tanto com os agentes do governo que, de fato, havia instalado uma ” Inspetoria ” do SPI na Terra Krahô, quanto com os regionais, apaziguando e acomodando uma situação ainda bastante conflituosa com o seu povo. Assim, angariou fama de homem sério, enérgico, honesto e cumpridor da palavra empenhada, tanto com os funcionários do governo como em toda a região do entorno da Terra Krahô.

Penon permaneceu como chefe da Pedra Branca até o ano de 1985, quando passou a responsabilidade para seu filho mais velho. No dia em que cumpriu esse ato, apoderou-se de um bastão, mais pela simbologia que por necessidade e passou a ser o ” mekoré” ( velho, sábio) da aldeia. 

Mesmo assumindo o papel de ancião, empreendeu talvez o seu maior feito guerreiro: liderou, no ano de 1987, uma comitiva de jovens Krahô à cidade de São Paulo, em busca da KYIRÉ – a machadinha de pedra semilunar, sagrada para os Krahô, que se encontrava no Museu Paulista.

O filho de Pedro Penon segura a machadinha sagrada do povo Krahô

Para isso, permaneceu em São Paulo durante três meses ininterruptos. Todos os seus acompanhantes retornaram após alguns dias de permanência na capital, enviando outros guerreiros em seus lugares. Penon se investira de tal forma da figura guerreira em busca de seu tesouro cultural, que aparentemente nada sentia, as despeito de poucas vezes ter saído de sua aldeia. Por isso ganhou um apelido de seus companheiros de aventura: “Ikran-ken” – cabeça de pedra. Levou de volta a machadinha e iniciou um longo processo de retransmitir aos jovens as histórias e os cantos a ela ligados. 

Aos poucos foi ficando cego, por conta de uma catarata que lhe cobria uma das vistas. A outra já havia perdido há tempos, por causa de uma operação mal feita, realizada por estudantes universitários em Goiânia. Por isso negava-se terminantemente a se operar novamente. O processo de avanço da cegueira consolidou-se definitivamente há cerca de dez anos. Passou então a se locomover pouco, puxado pelo seu velho bastão. Com o tempo, seus membros se atrofiaram e ele não caminhava mais. Mas fazia questão absoluta de participar de todas as reuniões importantes da aldeia, nem que para isso tivessem que carregá-lo nas costas. Jamais se negava, a qualquer hora que fosse, de contar as histórias antigas de seu povo, para quem o procurasse. 

Nos últimos anos foi também ficando surdo. Nenhum tremor de mãos, nenhum gemido, imprecação ou reclamação, a não ser de que seu povo não o procurava mais como antes e ele queria continuar ajudando “com a garganta”, como dizia. Morreu quieto, sereno, como só os grandes sábios sabem morrer . 

Tive o grande privilégio de ser amigo e discípulo de Penon por mais de vinte anos. Credito a ele grande parte da minha experiência acumulada e de posturas diante da vida. Considero-o mesmo um grande mestre e ele próprio me contou, há poucos anos, já cego e sem poder se locomover, que tinha constantes visões espirituais e que conversava com PAPAM – DEUS.

Penon vai virar pássaro, quati, tatu, árvore, estrela ou qualquer outro ser, nas longas histórias orais de seu povo, em sucessivas gerações, queira Deus, através dos novos milênios.

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