De Longe Toda Serra é Azul

Imagine-se aos 21 anos, subindo um rio amazônico para assumir uma enorme responsabilidade: a de proteger e mediar as relações entre as populações indígenas, o estado brasileiros e os moradores regionais, em uma região onde a cidade mais próxima ficava a 14 dias de viagem.

Imagine-se chegando à primeira aldeia de sua vida, onde dezenas de indígenas e seringueiros te aguardam, muitos deles para se consultarem com o “chefe-enfermeiro” que estava chegando, e você não sabe nada de medicina e enfermagem.

Imagine-se agora, demarcando as terras dos Xavantes, em Mato Grosso, enquanto os fazendeiros fazem rasantes sobre a picada com seus aviões e o exército cerca toda a região para tentar evitar conflitos sangrentos.

Alguns trechos do livro

Assim, podemos dizer que, se no Período Colonial os interesses do Estado se voltavam para os braços indígenas, com vistas ao avanço da colonização, no Período Imperial os interesses foram dirigidos para tomar as terras que ocupavam.
Nesse período, consolidaram-se também o conceito da incapacidade do índio e a inevitabilidade do seu desaparecimento pela sua incorporação à sociedade nacional ou pelo extermínio por sua inadaptabilidade à evolução humana.


Em 1889, instaurou-se a República no País. Nesse período, as discussões sobre o destino das leis e as práticas que deveriam nortear a “política indigenista” no novo regime fervilhavam. Há tempos, recrudescia uma discussão já acontecida no passado, em várias épocas, sobre “quem” deveria ficar responsável por essas ações: o poder religioso, que era representado pelas missões capuchinhas, franciscanas e carmelitas, ou o poder temporal, exercido pelo Estado. Ganharam os positivistas, que defendiam o poder laico estatal.

Em 1910, criou-se o “Serviço de Proteção aos Índios e Colocação dos Trabalhadores Nacionais” (SPILTN), cujo nome já não deixava dúvidas sobre o seu caráter colonizador. O Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon foi convidado para dirigir o novo órgão, tornando-se legendário no exercício dessa função.

E você acha que não é domingo também para nós? – retrucou Krokrok. Porque eu sou índio você acha que eu não tenho família, que eu não trabalho, que eu não descanso? Por causa de vocês, por causa dessas pessoas, fomos obrigados a deixar nossas famílias e estar aqui hoje. Por que eles não podem fazer o mesmo? O argumento era irrefutável e o burocrata se pôs a telefonar para as autoridades e transmitir o desejo dos caciques. Mesmo a contragosto, alguns de bermudas e chinelos apareceram, exceto o juiz, que não estava na cidade. .... Krokrok então fez, calmamente, um discurso que vou tentar reproduzir, resumidamente.

Disse ele: – Quem vocês pensam que nós somos? Animais, cachorros? Que vocês podem ir chegando, armados, nos assustando, como se acua uma anta para matar? Vocês pensam que são pedras, que viverão para sempre? Não, vocês não podem mais fazer isso e nem vocês são pedras! E nós não temos mais medo de vocês. Sabem por quê? Porque não temos mais para onde correr! Vocês nos tomaram quase tudo: a terra, a saúde, a valentia dos nossos guerreiros e agora querem nos levar o restinho de dignidade que ainda temos. Vocês pensam que não temos coração, que não temos espírito, que não sentimos nada, que não choramos a morte dos nossos parentes, que não trabalhamos para cuidar das nossas famílias. Vocês não sabem de nada, não entendem nada, a não ser de ganhar dinheiro e ficar ricos em cima da terra que é nossa, que vocês tomaram pelo poder das armas e das doenças que trouxeram de longe. Mas vocês não nos assustam mais, nós não temos mais medo de vocês, tanto é que estou aqui falando tudo isso na frente de vocês. Se vocês queriam prender o nosso amigo aqui, porque não me chamaram, por que não chamaram as nossas autoridades, que somos nós, e nos falaram como homens sobre isso? Por que tinham que ir assustar nossas mulheres e nossas crianças, que a essa hora muitos ainda estão escondidos no mato, se lembrando dos massacres que vocês já fizeram muitas vezes? O nosso amigo está aqui. Nós viemos trazê-lo. Ele também é branco, conhece as leis de vocês e vai saber se defender. Ele não cometeu nenhum crime, apenas é verdadeiramente nosso amigo e por isso vocês querem prendê-lo. Nós vamos vigiar. Só dizemos uma coisa: não aceitaremos nenhum branco em nossas terras até ele voltar...

Um imenso temporal desabou naquela noite, fazendo o rio ficar encapelado. Não se enxergava absolutamente nada, tudo era uma só escuridão. A ubá jogava violentamente, fazendo com que os esteios da “tolda” rangessem, como querendo se quebrar. Minha rede, amarrada a ela, era jogada de um lado ao outro de acordo com as ondas, dando a impressão que meu peso faria a pequena embarcação virar de vez.... Chegamos à vila de Jacareacanga no início da tarde do dia seguinte. Eu estava totalmente sem forças, não conseguia mais me levantar. Sentia que minha língua queria enrolar e as coisas e os sons estavam ficando longe, difusos, opacos. Levaram-me, na rede, para uma pensão na vila, onde eu costumava ficar quando passava por ali e cujo dono era da mesma região onde nasci, em Minas Gerais. Lembro-me de estar deitado no chão da sala da pensão, com um círculo de pessoas à minha volta, agora quase apenas vulto, os comentários distantes, a consciência se esvaindo, lentamente. Não sentia mais dor, angústia ou ânsia, apenas uma imensa fraqueza, um lento apagar de forças. De repente, um anjo apareceu para me roubar da morte.

Um novo olhar

Após a leitura deste livro, você mudará seus conceitos sobre os povos indígenas

Conceitos historicos

Sobre seus conhecimentos sobre história da colonização do Brasil

Ditadura e os indigenas

Conhecerá a mentalidade dos governantes militares durante a ditadura, com relação aos indígenas e a Amazônia

Porque esse livro é importante?

A leitura desse livro é recomendado para pessoas que sentem falta de historias dos indígena sem mascaras sobre a vivencia de 20 anos trabalhando em campo em aldeias indígenas

De Longe Toda Serra é Azul

  • Neste livro, relato meus 20 anos iniciais, de  contatos diretos com  etnias indígenas brasileiras
  • Relato também a luta dos indigenistas pós-1970, em assegurarem minimamente os territórios, as vidas e os direitos dos povos indígenas, durante a ditadura
    militar e como eles foram perseguidos

  • Você vai ler e vai perceber que exitem historias que não chegam à maioria das pessoas, por uma especie de "censura branca"
  • De Longe Toda Serra é Azul é um livro de produção
    independente,  1ª edição de 2006. A falta de interesse das grande editoras em publicar textos sobre as realidades brasileiras e prestigiar novos escritores, obrigou-nos a procurar diretamente nosso público, por este site.

  • O livro De Longe Toda Serra é Azul foi roteirizado para o cinema, aprovado pela ANCINE e deverá ter suas gravações iniciadas em 2018. Os produtores do filme, Neto Borges e Renato Barbieri, interessaram-se, principalmente,  pelas histórias de indigenistas que lutaram junto aos indígenas durante a ditadura militar, sendo que alguns deles continuam em atividade.

O que as pessoas estão falando sobre o livro

Luiz de Aquino Poeta e Blogger

Costumo dizer que poesia é a alma das artes. Mas essa alma, quando materializada, cria coisas como algumas atitudes. Fernando Schiavini vem a ser, portanto, um "poeta prático", ou seja, a materialização da poesia intelectualmente concebida. E você, poeta de letras, cumpre o seu papel de informar, com magistral beleza em seu texto, esse exemplo de vida que é o indigenista Fernando Schiavini.

Os grandes blogs falam sobre livro De Longe Toda Serra é Azul

Sinvaline Pinheiro Overmundo

Como indigenista, dormindo e comendo com os índios por todos esses anos, Schiavini sabe disso e junto com eles luta por seus direitos. E para contar o que realmente se passa entre os índios e as políticas indigenistas, escreveu "De longe toda serra é azul". Não poderia haver título mais sugestivo: é justamente o momento em que os índios estão em guerra na defesa do que julgam certo.

Confira aqui o review do livro no Overmundo

Sandoval Amparo cartamaior.com.br

...como sugere o próprio título, as verdadeiras cores de uma paisagem somente são conhecidas quando se ajuda a pintá-las; quando se participa, por assim dizer, do interior de seu movimento. Este é o primeiro mérito do autor, Fernando Schiavini, neste relato que, nem acadêmico nem ficcional – narrativa fácil e objetiva apenas – choca o leitor com as histórias vividas ao longo de duas das três décadas em que atua como indigenista na Funai e fora dela...

Confira aqui o review do livro no site cartamaior.com.br

Detalhes do Livro

O livro físico contem 222 paginas
Apresentação
Prólogo
Prefácio
29 capítulos

Capítulos

1-Alguma Coisa Precisa Acontecer. 2-Subindo o Tapajós. 3-O Posto Kayabi. 4-Os Kayabi.

5-Os Regatões. 6-O Tiro Salvador. 7-A Safra da Castanha. 8-A Malária. 9-Xavantes. 10-A SBI.

11-De Volta aos Xavantes. 12-Pantanal. 13-E o Velho Caminhão nos salvou. 14-De Volta às Aldeias.

15-Krahô. 16-A Proposta de Autogestão do Povo Krahô. 17-Conflitos no Norte de Goiás. 18-O Cerco.

19-O Julgamento. 20-Delegado. 21-Vingança. 22-Guerra Tribal. 23-Exílio. 24-O Resgate da Machadinha Sagrada.

25-A Universidade nas Aldeias. 26-A Luta de Raoni Contra Romero Jucá. 27-Kararaô, o “Woodstock Indígena”.

28-Krahô-Os Filhos da Terra. 29-Anistia.

Na compra do livro impresso você pode optar por 1 dos formatos que será enviado por e-mail para que você possa começar a experimentar o conteúdo.
1- Livro Digital E-Book em pdf  ou Áudio-Book narrado por mim

2- Participação de um grupo secreto no Facebook, onde estarei respondendo e comentando perguntas a respeito do Livro.