Carta aberta ao General Mourão

CARTA ABERTA AO GENERAL MOURÃO

Tenho 64 anos. Considero-me um cidadão brasileiro que também foi impactado
pela ditadura, como a nova geração de militares, como o senhor declarou. Talvez de
outra forma. Tinha 12 anos quando aconteceu a “revolução” (como queriam os militares
e seus aliados) ou o “golpe” (como denominavam a maioria dos civis), em 1964.
Presenciei a prisão, em minha pequena cidade natal, de pacatos cidadãos comuns, que
haviam sido denunciados como “comunistas” por seus adversários políticos locais. Isso
me privou da companhia de vários pequenos amigos, cujas famílias tiveram que tomar
outros rumos, tamanha a vergonha de serem consideradas “comedores de criancinhas”.
Aos 18 anos servi o exército no Rio de Janeiro. Ali, presenciei a chegada de presos
políticos encapuzados, geralmente jovens estudantes, serem jogados em celas
insalubres. Eles eram constantemente trocados por outros, em rodízio de prisões, para
despistar as buscas das suas famílias. Percebíamos cenários e indícios de tortura no
quartel, cenas que, obviamente, não eram reveladas aos recrutas como eu.
Depois, quando fui entendendo melhor as coisas, tomei conhecimento de fatos muito
mais graves, que aconteciam nos porões dos aparelhos de repressão da ditadura.
Exercendo posteriormente o meu trabalho de indigenista, fui perseguido, juntamente
com outros colegas, por discordar da forma como o regime militar tratava as populações
indígenas. Fomos anistiados em 1993. Sei, portanto, razoavelmente, do que estou
falando.
O senhor não pode negar, general, que os militares das forças armadas, aliadas a outros
aparatos policiais, torturavam os concidadãos brasileiros com requintes de crueldade,
ou os perseguia, por professarem ideias diferentes das propagadas pelo regime
instaurado pelos governos militares. O senhor não poderá negar também que muitos
brasileiros, além de torturados, tiveram seus corpos desaparecidos.
Eu sempre enxerguei as forças armadas como quaisquer outras instituições, mantidas
com os impostos do povo brasileiro. Partindo deste princípio, eu pergunto: o que
delegaria ao exército ou a outra instituição militar, o direito de intervir no governo, sob
qualquer pretexto, impondo à força suas ideologias? O que o faz sentir-se superior a
outros seguimentos, que professam outras ideias? As armas? Mas, elas também não são
compradas com o dinheiro de todos os brasileiros!
Não é somente o senhor, general. Todos os brasileiros estão preocupados com
os rumos que tomaram o país. Também assistimos, entre enojados e impotentes, as
sucessivas notícias do assalto que os políticos fazem ao nossos bolsos e à nossa
dignidade. Todos aguardamos, entretanto, que o processo democrático pelo qual todos
lutamos nos últimos 43 anos seja cumprido. Enfim, o povo brasileiro está, o mais
pacientemente possível, aguardando as providencias da justiça e as eleições gerais, para
tentar corrigir os rumos que as coisas tomaram. Afinal, não era exatamente “a volta da
democracia” que pregava os governos militares?

É óbvio que deve ser reconhecido coisas importantes realizadas pelos governos
militares. Sou testemunha, por exemplo, das ações da SUCAM – a Superintendência de
Campanhas, no combate às endemias tropicais na Amazônia; do Projeto Rondon, que
levou milhares de jovens a conhecerem o interior do país; da CEME – a Central de
Medicamentos, que fabricava medicamentos básicos para o atendimento à população de
baixa renda; da ação da EMBRATER , que coordenava a assistência técnica aos
pequenos e médios agricultores brasileiros, do MOBRAL, o primeiro programa de
alfabetização em massa do Brasil.
Acredito também na honestidade da maioria dos militares. Sei que eles passam
por uma rígida formação moral. Mas o senhor não pode negar que as oligarquias civis
que se formaram à sombra dos governos ditatoriais, são as mesmas que atualmente
estão no centro dos vergonhosos escândalos que assolam a república. Seus
representantes tem até nome, há muito estabelecido: “filhotes da ditadura” .
Penso, General Mourão, que a maioria da população brasileira até aceitaria,
pacificamente, outra intervenção militar em suas vidas, desde que:
- As forças armadas deixassem bem claro, desde o início, quais seriam os seus
métodos para acabar, de um só golpe, com a corrupção no Brasil, em todos os níveis
federados;
- Que se comprometesse em não prender, arrebentar e torturar seus concidadãos,
apenas porque eles pensam que esses métodos e entendimentos políticos poderiam ser
diferentes;
- Que não criasse sucedâneos do famigerado Serviço Nacional de Informações
(SNI), que servia, em grande medida, para coletar informações falsas de desafetos
pessoais, de aliados contra os opositores do regime ditatorial;
- Que não aceitasse nenhum financiamento, interferência, sugestão ou
manipulação de outros países;
- Que não se aliasse a nenhuma das correntes políticas que aí estão, colocando
fantoches civis no executivo, legislativo e judiciário. Eles, certamente, serão os
próximos corruptos que irão atormentar nossos filhos e netos, no futuro;
- Que não fizesse uma aliança incondicional com o grande capital internacional,
captando somas astronômicas para o “desenvolvimento”, como também foi feito no
período da ditadura. Isso endividou o país por décadas, atravancando exatamente esse
desenvolvimento, além de fomentar práticas empresariais corruptas, que hoje também
nos envergonham;
- Que não empodere nenhuma rede de comunicações para transmitir as ideias do
regime, que depois se transforme no “grande poder” da república, manipulando toda a
população, como está acontecendo. Aliás, se puder dar uma ajudinha na regulação nessa

área, seria ótimo. Para nós, civis, eles sempre falam que é tentativa de censura e
continuam entupindo nossos jovens com vícios e sonhos ilusórios de consumo.
Que respeitasse as legislações e o avanço da consciência ambiental dos brasileiros, não
criando planos mirabolantes para “integrar” a Amazônia ao restante do país,
devastando-a mais ainda, ou entregando-a aos latifundiários do sul e do sudeste, como
foi feito com os Cerrados;
Que respeitasse os povos indígenas, reconhecendo-lhes o direito originário sobre as
suas terras, usos, costumes e tradições, como está estabelecido na Constituição Federal.
E os reconheça como maiores preservadores ambientais do país;
Que solicitasse e respeitasse a opinião de pessoas e instituições civis comprometidas
com a ética na vida pública. Os militares, afinal, não detêm o monopólio das virtudes
cívicas neste país;
Que se comprometesse, publica e formalmente, com o povo brasileiro, de convocar
eleições gerais no prazo estabelecido pela legislação atual.
Acredito que, se as forças armadas agissem da forma como dissemos acima, ela teria a
simpatia e o apreço da maioria da população brasileira, pois seria uma espécie de
reconhecimento que se ela – a ditadura, cometeu alguns erros, corrigiu-os, entregando
novamente a nação ao processo democrático, a única forma reconhecida de promover,
minimamente, a igualdade entre as classes sociais, no sistema capitalista.
Se não for possível, o melhor é todos nós brasileiros termos paciência e aguardar as
decisões da justiça e o cumprimento do calendário eleitoral estabelecido.
Sabe o único receio que muitos brasileiros sentem hoje, General? Fraudes nas eleições.
Se o exercito pudesse dar uma força nessa garantia, também seria muito bom.
Com humildade cidadã,

Fernando Schiavini
Indigenista e Escritor.

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